Eu, que me chamo o nome que minha mãe me deu, conheci uma garota que tinha o mesmo nome que seus pais deram a ela. Sua idade era só dela. A minha, um livro aberto e em branco. Ela tinha tudo, menos eu. Eu, tinha o contrário dela, menos ela. Seus cabelos, cor de alguma coisa parecida com outra. Cintura do jeito que eu gosto, meio sem jeito, que eu não sabia qual era. Braços compridos e curtos, de acordo com a situação. Pernas com joelhos, pés e dedos. Linda por fora e feia por vice-versa. Tinha futuro, passado, presente. E eu, ausente em tudo. Ela tinha um quê de não sei o que lá. E eu era o reverso. Deve ser por isso, com certeza, que a gente não deu muito certo. Só por isso e por um pouco mais de um monte de outras coisas que a gente nunca soube exatamente de nada. Só amou e desamou.
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29 de jun. de 2011
Desconhecidos
Eu, que me chamo o nome que minha mãe me deu, conheci uma garota que tinha o mesmo nome que seus pais deram a ela. Sua idade era só dela. A minha, um livro aberto e em branco. Ela tinha tudo, menos eu. Eu, tinha o contrário dela, menos ela. Seus cabelos, cor de alguma coisa parecida com outra. Cintura do jeito que eu gosto, meio sem jeito, que eu não sabia qual era. Braços compridos e curtos, de acordo com a situação. Pernas com joelhos, pés e dedos. Linda por fora e feia por vice-versa. Tinha futuro, passado, presente. E eu, ausente em tudo. Ela tinha um quê de não sei o que lá. E eu era o reverso. Deve ser por isso, com certeza, que a gente não deu muito certo. Só por isso e por um pouco mais de um monte de outras coisas que a gente nunca soube exatamente de nada. Só amou e desamou.
23 de jun. de 2010
5 de mar. de 2010
À Sombra da Saudade
Há tanto tempo não passava por aquela rua, a mesma e antiga rua que a levava e a trazia, todos os dias, da escola. A mesma árvore com raízes fortes que pulavam da calçada. As mesmas casas, agora mais antigas e cada vez mais cheias de histórias. Tantas lembranças bem guardadas, esperando o dia certo para voltar.
Agora estava ali, de frente ao seu passado, de frente à sua mais bonita recordação. Naquela rua, deu o seu primeiro beijo. Foi debaixo da sombra daquela mesma árvore forte, tão forte quanto o que sentira naquele eterno instante, que viveu o amor pela primeira vez. Não amor de gente grande. Amor de ter amado, mais do que qualquer coisa naqueles tempos, aquele momento. Beijo ingênuo, beijo simples e meigo, cheio da mais certa verdade. Beijo honesto, beijo de criança, de amor puro, sem compromisso com mais nada.
Beijo escondido. Ninguém mais sabia do gosto que tinha um pelo outro. Naquela rua, guardaram juntos essa história. Ambos eram muito tímidos. Ele, mais. Foi com um bilhete que ela mandou que combinaram o lugar. Todo sem jeito, ele chegou sem dizer nada, sem saber direito o que fazer. Ela, mais baixa, já estava sobre a calçada. Colocou os braços sobre seus ombros e o beijou, exatamente como havia aprendido nos filmes. Viveram um amor bem protegido das brincadeiras e chacotas dos outros. Até o dia em que ele se foi. Não por vontade ou maldade. Apenas se foi, junto com toda a sua família, pra outro lugar.
Agora, mais velha, estava de frente ao passado e ao lado do seu mais próximo futuro. Seu noivo. Por um segundo, parou. O velho sorriso, esquecido há tantos anos, voltara. No amor, entre altos a baixo, vivia uma história sem cor. Estava cansada de amar e não ser tão amada como queria e merecia.
Devagar, subiu na calçada, debaixo daquela mesma árvore, e chamou o seu noivo, que estava disperso entre pensamentos, para mais próximo. Sobre os ombros, novamente, colocou os seus braços. Devagar, o beijou. Pra ele, um beijo qualquer. Pra ela, saudade, lembranças, amor como nunca sentiu.
Quando ele se afastou, ela estava chorando. Ele nem percebeu. Apenas pegou em sua mão e, do jeito que sempre fazia, sem vontade alguma de sentí-la, seguiu ausente ao seu lado, pela última vez.
22 de fev. de 2010
O Menino, o Vampiro e o Pescoço
Tinha certeza que era só sonho. Um grande sonho. O que mais podia
querer um menino de 12 anos, cheio de coisas a descobrir e tão dependente de
tudo e de todos, além de liberdade e poderes? No seu sonho, era vampiro. Podia
voar, podia correr tão rápido quanto pudesse imaginar. Tinha forças
extraordinárias. Chupava os pescoços de donzelas, transformando-as em suas
eternas admiradoras.
Acordou com um pressentimento estranho. Na verdade, era uma idéia fixa que não parecia ser só sua. No sonho, se transformara em vampiro quando, no recreio da escola, como de costume, a pedra que alguém arremessava pra cima tocava o chão, anunciando o começo da brincadeira. Apesar da descrença, era criança e, mais que isso, era um grande sonhador. Resolveu acreditar que aquilo fazia sentido e que deveria aguardar a pedra cair novamente para alguma coisa acontecer.
A primeira parte demorou a acabar. As aulas pareciam intermináveis, até a sirene tocar, anunciando o intervalo. Todos correram pro pátio. Uns ansiosos para a brincadeira, outros famintos. A correria, normalmente, começava no meio do intervalo, quando alguns já haviam se alimentado. Estava nervoso, porém quieto. Observava detalhadamente cada rosto ali presente. Também tinha um amor de criança. Ela estava logo à sua frente, onde sempre ficava nos recreios, junto às suas amigas. Ela também gostava dele. Os dois trocaram um olhar, bem rápido, mas significativo.
Sabia que a hora estava chegando. Alguns já haviam anunciado o começo da brincadeira em breve. Aproximou-se do grupo, ainda quieto, diferentemente dos outros dias. Esperou. Logo todos se reuniram. Quem jogava a pedra era o pegador da vez. Esse tinha que pegar todos que corressem. A brincadeira acabava quando todos eram pegos. O pegador foi anunciado. A pedra já estava em sua mão. Num instante, sem esperar qualquer outro anúncio, um garoto jogou a pedra pra cima.
Aquele momento demorou a passar. A pedra, próxima ao chão, parecia ter percorrido um caminho maior do que de costume. Talvez tenha sido a força do garoto que a jogou, ou a ansiosidade, maior do que pudesse imaginar. A pedra caiu. Ele parou. Ficou ali empedrado por vários segundos até perceber que nada tinha acontecido. Num instante, sua feição séria e nervosa se transformara em tristeza e desolação. De cabeça baixa, ficou por mais alguns segundos.
Sentiu a proximidade de alguém. De repente estava sendo abraçado por uma menina. Era ela, a sua pequena amada. De longe, ela o observara. Havia percebido a mudança repentina e a tristeza que tomava conta do seu garoto. Por isso resolveu abraçá-lo. Sem saber o que fazer, aos poucos, ele retribui o abraço. O aperto ficou ainda mais forte e mais sincero. Então, ele começou a chorar. Agora, sem saber se era por desilusão ou por paixão. Chorou. Ela também o abraçou mais forte.
Ali, parado por quase um minuto naquele aperto bom, sem saber o que mais fazer, avistou o pescoço liso da menina que o abraçava. Estava próximo da sua boca. Sem pensar, mordeu-o. Não usou a força. Pelo contrário, foi quase um beijo. Ela mesma, nem percebeu. Se percebeu, gostou. Ele adorou. Mordeu e voltou a abraçá-la, agora com um sorriso escondido no canto da boca, como um vampiro que sorri após sugar sua presa. Foi aí que entendeu que pra ser vampiro não precisava aprender a voar assim, de um dia pro outro. Podia começar devagar, só mordendo os pescoços das donzelas. Nessa história, até se arrependeu um pouco de não ter feito isso antes da pedra cair.
Acordou com um pressentimento estranho. Na verdade, era uma idéia fixa que não parecia ser só sua. No sonho, se transformara em vampiro quando, no recreio da escola, como de costume, a pedra que alguém arremessava pra cima tocava o chão, anunciando o começo da brincadeira. Apesar da descrença, era criança e, mais que isso, era um grande sonhador. Resolveu acreditar que aquilo fazia sentido e que deveria aguardar a pedra cair novamente para alguma coisa acontecer.
A primeira parte demorou a acabar. As aulas pareciam intermináveis, até a sirene tocar, anunciando o intervalo. Todos correram pro pátio. Uns ansiosos para a brincadeira, outros famintos. A correria, normalmente, começava no meio do intervalo, quando alguns já haviam se alimentado. Estava nervoso, porém quieto. Observava detalhadamente cada rosto ali presente. Também tinha um amor de criança. Ela estava logo à sua frente, onde sempre ficava nos recreios, junto às suas amigas. Ela também gostava dele. Os dois trocaram um olhar, bem rápido, mas significativo.
Sabia que a hora estava chegando. Alguns já haviam anunciado o começo da brincadeira em breve. Aproximou-se do grupo, ainda quieto, diferentemente dos outros dias. Esperou. Logo todos se reuniram. Quem jogava a pedra era o pegador da vez. Esse tinha que pegar todos que corressem. A brincadeira acabava quando todos eram pegos. O pegador foi anunciado. A pedra já estava em sua mão. Num instante, sem esperar qualquer outro anúncio, um garoto jogou a pedra pra cima.
Aquele momento demorou a passar. A pedra, próxima ao chão, parecia ter percorrido um caminho maior do que de costume. Talvez tenha sido a força do garoto que a jogou, ou a ansiosidade, maior do que pudesse imaginar. A pedra caiu. Ele parou. Ficou ali empedrado por vários segundos até perceber que nada tinha acontecido. Num instante, sua feição séria e nervosa se transformara em tristeza e desolação. De cabeça baixa, ficou por mais alguns segundos.
Sentiu a proximidade de alguém. De repente estava sendo abraçado por uma menina. Era ela, a sua pequena amada. De longe, ela o observara. Havia percebido a mudança repentina e a tristeza que tomava conta do seu garoto. Por isso resolveu abraçá-lo. Sem saber o que fazer, aos poucos, ele retribui o abraço. O aperto ficou ainda mais forte e mais sincero. Então, ele começou a chorar. Agora, sem saber se era por desilusão ou por paixão. Chorou. Ela também o abraçou mais forte.
Ali, parado por quase um minuto naquele aperto bom, sem saber o que mais fazer, avistou o pescoço liso da menina que o abraçava. Estava próximo da sua boca. Sem pensar, mordeu-o. Não usou a força. Pelo contrário, foi quase um beijo. Ela mesma, nem percebeu. Se percebeu, gostou. Ele adorou. Mordeu e voltou a abraçá-la, agora com um sorriso escondido no canto da boca, como um vampiro que sorri após sugar sua presa. Foi aí que entendeu que pra ser vampiro não precisava aprender a voar assim, de um dia pro outro. Podia começar devagar, só mordendo os pescoços das donzelas. Nessa história, até se arrependeu um pouco de não ter feito isso antes da pedra cair.
19 de fev. de 2010
Estava Escrito
Debaixo de chuva, ela partiu. Agora, sem volta. Só a dor e a saudade voltariam, ora pra provocar a tristeza, ora pra ter a certeza de que fez o melhor que podia.
Ele aproveitou a chuva que caía lá fora, que assistia da janela da sala, pra retomar a leitura que abandonara na noite anterior. Deitou-se no sofá da sala, entre lampejos e o barulho da água que escorria do telhado de sua casa de campo, pegou o livro largado na escrivaninha do telefone e o abriu na página marcada. Lá fora, o vento batia constante sobre as folhas das árvores, que balançavam de um lado pro outro.
Terror. Esse era o gênero que mais gostava. Perdia horas lendo histórias assim. Talvez, por isso, seu casamento também tenha se perdido. Ela jamais compreendeu tantas horas dedicadas aos livros e tão poucas dedicadas à história dos dois. Por fora, ele não se abalou tanto. Ia aproveitar o final de semana para pensar melhor na sua vida e gastar um pouco mais de tempo consigo mesmo.
Na história do livro, a chuva caía cada vez mais forte. Lá fora, uma tempestade era anunciada a cada nova rajada de vento, que agora batia mais forte e sem ritmo. Gritos e tiros vinham de todas as partes, do livro e de fora da casa. Pela janela, viu árvores caírem, viu pessoas correndo e chorando, ouviu e sentiu o calor do fogo que chegou abrindo a mata que encobria sua casa.
Fechou o livro assim que conseguiu desgarrá-lo de suas mãos. Lá fora, só o barulho do vento e da água que escorria da calha. Sentou-se no sofá, respirou ofegante, limpou o suor que descia de sua testa e se levantou. Foi até o quarto e, sem saber o que fazer, deitou-se sobre a cama bagunçada. Virou-se, ainda sem entender o que tinha acontecido, e encontrou, com os olhos perdidos, o livro que sua mulher havia deixado sobre a cabeceira. Instintivamente, pegou-o e leu a última página:
“Debaixo de chuva, ela partiu. Agora, sem volta. Só a dor e a saudade voltariam, ora pra provocar a tristeza, ora pra ter a certeza de que fez o melhor que podia. Era o amor de sua vida que deixara pra trás. À sua frente, um mundo desconhecido, que tinha medo de enfrentar sozinha. Porém, uma coisa ela sabia: atrás, dessa vez, ela não mais voltaria.”
Ele aproveitou a chuva que caía lá fora, que assistia da janela da sala, pra retomar a leitura que abandonara na noite anterior. Deitou-se no sofá da sala, entre lampejos e o barulho da água que escorria do telhado de sua casa de campo, pegou o livro largado na escrivaninha do telefone e o abriu na página marcada. Lá fora, o vento batia constante sobre as folhas das árvores, que balançavam de um lado pro outro.
Terror. Esse era o gênero que mais gostava. Perdia horas lendo histórias assim. Talvez, por isso, seu casamento também tenha se perdido. Ela jamais compreendeu tantas horas dedicadas aos livros e tão poucas dedicadas à história dos dois. Por fora, ele não se abalou tanto. Ia aproveitar o final de semana para pensar melhor na sua vida e gastar um pouco mais de tempo consigo mesmo.
Na história do livro, a chuva caía cada vez mais forte. Lá fora, uma tempestade era anunciada a cada nova rajada de vento, que agora batia mais forte e sem ritmo. Gritos e tiros vinham de todas as partes, do livro e de fora da casa. Pela janela, viu árvores caírem, viu pessoas correndo e chorando, ouviu e sentiu o calor do fogo que chegou abrindo a mata que encobria sua casa.
Fechou o livro assim que conseguiu desgarrá-lo de suas mãos. Lá fora, só o barulho do vento e da água que escorria da calha. Sentou-se no sofá, respirou ofegante, limpou o suor que descia de sua testa e se levantou. Foi até o quarto e, sem saber o que fazer, deitou-se sobre a cama bagunçada. Virou-se, ainda sem entender o que tinha acontecido, e encontrou, com os olhos perdidos, o livro que sua mulher havia deixado sobre a cabeceira. Instintivamente, pegou-o e leu a última página:
“Debaixo de chuva, ela partiu. Agora, sem volta. Só a dor e a saudade voltariam, ora pra provocar a tristeza, ora pra ter a certeza de que fez o melhor que podia. Era o amor de sua vida que deixara pra trás. À sua frente, um mundo desconhecido, que tinha medo de enfrentar sozinha. Porém, uma coisa ela sabia: atrás, dessa vez, ela não mais voltaria.”
5 de fev. de 2010
O Carteiro Falante
Há muito tempo atrás, nos tempos de pé-de-guerra, existiu um rapaz que ficou muito falado e conhecido por sua generosidade. Diferente dos outros serviços de comunicação prestados à comunidade, o moço de pouca idade entitulava-se “O Carteiro Falante”. Seu trabalho era o seguinte: enquanto os homens das donzelas saiam para as batalhas contra os bárbaros, os ótimos, as bestas e os demais (monstros, dragões, urubus, tribufus, barangos), o Carteiro Falante ia de casa em casa, convocando as mulheres a se sentarem em suas varandas enquanto declamava os recados enviados por seus homens. As mulheres entusiasmavam-se por terem notícias de seus homens. Em troca, o Carteiro só lhes exigia uma resposta, em forma de carta escrita, redigida, rabiscada e digitalizada (impregnada de digitais) para ser enviada aos seus guerreiros amados.
O serviço que o Carteiro Falante prestava era, fundamentalmente, de utilidade pública, uma tentativa de tapar uma parte do buraco cavado pela saudade. Porém, nada ali declamado era verdade. É verdade que poucas duvidavam da veracidade do conteúdo poético-prosaico do Carteiro Falante, mas, não por isso, o rapaz foi condenado. Daí você me pergunta: “e o que ele fazia com as cartas que as donzelas redigiam?”. Isso jamais foi desvendado. Existem boatos que sugerem que o Carteiro era um homem solitário e que mal dormia. Por isso, gastava suas noites propagando histórias, enchendo os corações das senhoras (dos outros) de esperança e de boa saudade, para, em troca, nas madrugadas, poder sonhar a sua própria história de amor, lendo carta por carta e imaginando serem, todas, de suas amadas.
Abaixo transcrevo um trecho do texto introdutório às histórias que o pobre Carteiro Falante declamava às saudosas donzelas:
“Bom dia, minha senhora! Já tomou o seu café? E o banho? Vai outrora? Então venha aqui pra fora, pois lhe trago uma mensagem deferente de um velho conhecido que assina “Seu marido”, que também é “Seu querido”, “Seu amado”, “Idolatrado”, "Tão vivido", “O seu amor”. Se aprochegue na varanda que eu já vou começar a ladainha. Preste muita atenção na encenação, pois todas minhas caretas são suspeitas, mas porque também são pura imitação da representação que o seu velho me fez. Pois então, vamos começar. É um, é dois e é três (...)“.
O serviço que o Carteiro Falante prestava era, fundamentalmente, de utilidade pública, uma tentativa de tapar uma parte do buraco cavado pela saudade. Porém, nada ali declamado era verdade. É verdade que poucas duvidavam da veracidade do conteúdo poético-prosaico do Carteiro Falante, mas, não por isso, o rapaz foi condenado. Daí você me pergunta: “e o que ele fazia com as cartas que as donzelas redigiam?”. Isso jamais foi desvendado. Existem boatos que sugerem que o Carteiro era um homem solitário e que mal dormia. Por isso, gastava suas noites propagando histórias, enchendo os corações das senhoras (dos outros) de esperança e de boa saudade, para, em troca, nas madrugadas, poder sonhar a sua própria história de amor, lendo carta por carta e imaginando serem, todas, de suas amadas.
Abaixo transcrevo um trecho do texto introdutório às histórias que o pobre Carteiro Falante declamava às saudosas donzelas:
“Bom dia, minha senhora! Já tomou o seu café? E o banho? Vai outrora? Então venha aqui pra fora, pois lhe trago uma mensagem deferente de um velho conhecido que assina “Seu marido”, que também é “Seu querido”, “Seu amado”, “Idolatrado”, "Tão vivido", “O seu amor”. Se aprochegue na varanda que eu já vou começar a ladainha. Preste muita atenção na encenação, pois todas minhas caretas são suspeitas, mas porque também são pura imitação da representação que o seu velho me fez. Pois então, vamos começar. É um, é dois e é três (...)“.
1 de fev. de 2010
Cão Tristeza
Um dia, ganhei um cão de presente. Chamei-o carinhosamente
de Tristeza. Custoso como só ele, Tristeza fazia o que queria lá em casa. Até
tentei controlar o danado, mas com Tristeza não tinha jeito, era dele o
reinado.
Um dia Tristeza fugiu. Meio confuso, não sabia se ia atrás ou deixava Tristeza de lado. Foi aí que ouvi uma voz de criança gritando lá de fora: “Olha mamãe! Que cão mais bonito. Posso ficar com ele?”. Aquilo me deixou atrapalhado. Como podia alguém gostar de Tristeza? Foi então que resolvi fingir que não tinha dono. Esperei um pouco antes de ir lá fora ver se Tristeza já tinha ido embora. A menina o carregava no colo com tanta alegria. De longe ainda ouvi sua mãe lhe perguntar qual seria o nome do cãozinho. Antes que respondesse, gritei: “É tristeza o nome dele!”. Na hora, tristeza pulou do colo da menina e veio correndo pra mim. Veio tão rápido que quase caí. Depois Tristeza ainda mordeu meu calcanhar antes de entrar correndo pra casa. A mordida doeu. As brincadeiras de Tristeza, quase sempre, me machucavam. Mas foi aí que eu entendi de verdade a importância de tê-lo em casa. No fundo, eu gostava dele. Na verdade, só quando conheci Tristeza que descobri o que era ser mesmo feliz.
Hoje, Tristeza não é mais o rei. A gente divide o trono. Ele não dorme mais comigo. Tem seu próprio quarto. Vez ou outra, escondido, ele chega e se ajeita por ali, na pontinha da cama. Mas hoje ele me obedece. É só eu dizer “Vai pro seu quarto, tristeza!” que ele sai rapidinho, com o rabo entre as pernas. Com Tristeza é assim: ou você o aceita com todos os defeitos mas trata logo de deixar claro quem que manda ou ele logo toma conta de tudo, na maior folga e frieza.
Um dia Tristeza fugiu. Meio confuso, não sabia se ia atrás ou deixava Tristeza de lado. Foi aí que ouvi uma voz de criança gritando lá de fora: “Olha mamãe! Que cão mais bonito. Posso ficar com ele?”. Aquilo me deixou atrapalhado. Como podia alguém gostar de Tristeza? Foi então que resolvi fingir que não tinha dono. Esperei um pouco antes de ir lá fora ver se Tristeza já tinha ido embora. A menina o carregava no colo com tanta alegria. De longe ainda ouvi sua mãe lhe perguntar qual seria o nome do cãozinho. Antes que respondesse, gritei: “É tristeza o nome dele!”. Na hora, tristeza pulou do colo da menina e veio correndo pra mim. Veio tão rápido que quase caí. Depois Tristeza ainda mordeu meu calcanhar antes de entrar correndo pra casa. A mordida doeu. As brincadeiras de Tristeza, quase sempre, me machucavam. Mas foi aí que eu entendi de verdade a importância de tê-lo em casa. No fundo, eu gostava dele. Na verdade, só quando conheci Tristeza que descobri o que era ser mesmo feliz.
Hoje, Tristeza não é mais o rei. A gente divide o trono. Ele não dorme mais comigo. Tem seu próprio quarto. Vez ou outra, escondido, ele chega e se ajeita por ali, na pontinha da cama. Mas hoje ele me obedece. É só eu dizer “Vai pro seu quarto, tristeza!” que ele sai rapidinho, com o rabo entre as pernas. Com Tristeza é assim: ou você o aceita com todos os defeitos mas trata logo de deixar claro quem que manda ou ele logo toma conta de tudo, na maior folga e frieza.
26 de jan. de 2010
A Vizinha
Quem conheceu Claudinha há uns anos atrás não acreditou quando a viu descendo
na rodoviária, voltando da longa temporada que passou na Europa. Não era magra.
Era um espetáculo. Corpão violão, alta, tipo modelo de vitrine de loja de
biquine. Muita carne. E nessa época ela não fazia o menor esforço pra manter a
boa forma. Comia de tudo, e muito.
Mas a própria Claudinha sabia que estava fora de forma. Já voltou com um propósito em mente. Ia retomar o posto de rainha da gostosura. Estava resolvida. Ia fazer regime, fechar a boca, acabar com a graça de comer, só pra perceber, de novo, o sorriso estampado na boca da marmanjada quando a viam.
Mas a própria Claudinha sabia que estava fora de forma. Já voltou com um propósito em mente. Ia retomar o posto de rainha da gostosura. Estava resolvida. Ia fazer regime, fechar a boca, acabar com a graça de comer, só pra perceber, de novo, o sorriso estampado na boca da marmanjada quando a viam.
Todos lhe alertaram sobre os cuidados que deveria tomar. Sobre as
tentações que iriam surgir e sobre como ela deveria fugir delas. Ela só não
acreditou que seria tão difícil.
- Suculento's Grill, boa noite!
- Suculento's Grill, boa noite!
- Alô!
- Suculento's Grill!?
- Oi! É... Vocês ainda têm aquele sanduíche de bacon com tomate, alface,
queijo e molho barbecue?
- Temos sim. É o X-Suculento's Bacon. Só que agora ele está maior,
ganhou mais uma carne de hambúrguer e mais queijo.
- Ái...! Você pode repetir o nome, por favor?
- X-Suculento's Bacon!
- Que espetáculo de nome! Olha, eu vou querer um.
- Tudo bem. Qual é o seu nome?
- Cláudia Gomes.
- ...Claudinha?
...
- Alô!? Cláudia?
Ligação cai.
Todos já sabiam que Claudinha estava de volta e que também estava de regime. Principalmente as mulheres. É que apesar de Claudinha ser querida por quase todos, as mulheres morriam de inveja do seu corpão. Quando souberam que ela tinha engordado, ficaram aliviadas, e até com um sorrisinho de vingança no canto da boca.
Estava difícil pra Cláudia. Não tinha coisa que mais gostava de fazer do que ligar na lanchonete e pedir o X-Suculento’s Bacon. Ela amava. Antes de ir pra Europa, todos os dias ela ligava na lanchonete e pedia um caprichado. Com o regime, teria que esquecê-lo por um bom tempo, ou quem sabe, pra sempre.
- Suculento’s Grill, boa noite!
Todos já sabiam que Claudinha estava de volta e que também estava de regime. Principalmente as mulheres. É que apesar de Claudinha ser querida por quase todos, as mulheres morriam de inveja do seu corpão. Quando souberam que ela tinha engordado, ficaram aliviadas, e até com um sorrisinho de vingança no canto da boca.
Estava difícil pra Cláudia. Não tinha coisa que mais gostava de fazer do que ligar na lanchonete e pedir o X-Suculento’s Bacon. Ela amava. Antes de ir pra Europa, todos os dias ela ligava na lanchonete e pedia um caprichado. Com o regime, teria que esquecê-lo por um bom tempo, ou quem sabe, pra sempre.
- Suculento’s Grill, boa noite!
- Alô! É... Eu queria pedir um sanduíche.
- Sim. Pode fazer o seu pedido.
- Eu queria aquele de bacon...
- O X- Suculento’s Bacon?
- Isso! Esse mesmo! Lindo!
- Que isso, assim eu fico sem jeito.
- Não você! O sanduíche!
- Ah, sim! Claro.
- Você pode me dizer o que vem nele?
- Pois sim. Ele vem com duas camadas de pães, agora com dois
hambúrgueres grill na chapa, tomate, alface, bacon, duas fatias de queijo e
molho barbecue.
- ...Não pára! Vai! Continua!
- Mas é só isso.
- Ah... desculpa, eu me empolguei.
- Quer fazer o pedido?
- Não. Obrigado! Mas você pode repetir os ingredientes, por favor? Dessa
vez, mais devagar, tá?
Ligação cai.
Apesar de todas as recomendações, estava difícil pra Claudinha conseguir fugir das tentações. Por ter extrapolado quando mais jovem, ter comido sem nenhum pudor, talvez tenha chegado a hora de pagar por todo o excesso. Esse seria o preço pela juventude transviada, mesmo ela achando que não iria agüentar por muito tempo.
- Suculento’s Grill, boa noite!
Apesar de todas as recomendações, estava difícil pra Claudinha conseguir fugir das tentações. Por ter extrapolado quando mais jovem, ter comido sem nenhum pudor, talvez tenha chegado a hora de pagar por todo o excesso. Esse seria o preço pela juventude transviada, mesmo ela achando que não iria agüentar por muito tempo.
- Suculento’s Grill, boa noite!
- Boa noite! Eu gostaria de fazer um pedido.
- Pois sim! Qual é o seu nome?
- Cláudia Gomes.
- Claudinha?
- É! Sou eu sim. Você vai anotar o meu pedido ou não?
- Mas, Cláudia. E o regime?
- Por favor! Sem perguntas. É um X-Suculento’s Bacon, bem caprichado. Ah!
E um refrigerante também.
- Tudo bem. Confirma o endereço, por favor?
- Avenida das flores, número 35, apartamento 1302.
- 1302? Não seria o 1301?
- Não. É o 1302 mesmo, por favor!
- Ok! Vai demorar uns trinta minutos, tudo bem?
- Pode ser! E só mais uma coisa. Eu queria que, junto com o sanduíche,
vocês enviassem uma carta dizendo o seguinte: “Vizinha. Receba com carinho este
sanduíche como forma de agradecimento a todo cuidado que teve com o meu
apartamento no período que estive fora. A única coisa que peço é que o coma na
sacada de sua sala e, se possível, espere o vento que vem do leste bater para abri-lo. Com
carinho, Claudinha!”
23 de jan. de 2010
Aconteceu no Velho Oeste
Há muito tempo
atrás, no tempo do velho oeste, numa cidade pequena, tipo aquelas de filmes de
faroeste, existia um rapaz apaixonado. Seu nome ainda é desconhecido. Dele, só é sabido o apelido: Tam Tam. Apesar de meio lerdo (meio lerdo de
verdade; devagar, devagarinho; bem lesado; dos que faltam parafuso; tipo
inteiro retardado; desprovido mentalmente; sujeito muito demente; meio fraco da
cabeça é meio pouco pra tanto talento em ser desfavorecido de força cuquífera –
da cuca), o rapaz se apaixonou pela mais bela moça da cidade. Mas a donzela
também tinha seus problemas. O primeiro: era casada. O segundo: com um matador.
Certo dia, o "Tam Tam Apaixonado" planejou fugir com a amada. Mandou-lhe uma carta toda feita de palavras recortadas de jornal, pra caso o marido dela visse não descobrisse a sua origem, preservando assim a verticalidade do seu miúdo corpo. No outro dia, “Tam Tam” foi encontrado na horizontal, todo todo picotado, como frango de galinhada. É que, apesar de todo o esforço embutido nas palavras misteriosas, o maluco também assinou a carta, com nome próprio e tudo mais que lhe obrigava a escrita formal, inclusive, seu telefone (coisa que ainda nem existia).
E foi assim que também assinou a lápide, o túmulo, a lousa tumular, a velha campa, a sepultura, o sepulcro, o jazigo, a copa, dentre muitas outras coisas, fazendo dele o cara que mais assinou no Velho Oeste.
Certo dia, o "Tam Tam Apaixonado" planejou fugir com a amada. Mandou-lhe uma carta toda feita de palavras recortadas de jornal, pra caso o marido dela visse não descobrisse a sua origem, preservando assim a verticalidade do seu miúdo corpo. No outro dia, “Tam Tam” foi encontrado na horizontal, todo todo picotado, como frango de galinhada. É que, apesar de todo o esforço embutido nas palavras misteriosas, o maluco também assinou a carta, com nome próprio e tudo mais que lhe obrigava a escrita formal, inclusive, seu telefone (coisa que ainda nem existia).
E foi assim que também assinou a lápide, o túmulo, a lousa tumular, a velha campa, a sepultura, o sepulcro, o jazigo, a copa, dentre muitas outras coisas, fazendo dele o cara que mais assinou no Velho Oeste.
20 de jan. de 2010
Hipocondríaco
Dois amigos discutem sobre um problema irremediável:
- Minhas vistas estão escurecendo.
- Toma!
- O que é isso?
- Uma lanterna.
- Não consigo segurar. Meus braços estão doendo. Você não tem um remédio aí?
- Esquece essa sua mania.
- Então me dá um remédio.
- Pra dor no braço?
- Não. Pra esquecer.
- Claro que não. E mesmo que tivesse, depois você ia querer um pra se lembrar.
- É! Seria ótimo. Você tem aspirina? Acho que vou começar a ter dor-de-cabeça.
POW!
- Put*& #$@! Por que me chutou?
- Pra você esquecer a dor-de-cabeça. Passou?
- Agora eu preciso de um remédio pra dor na perna.
POW!
- Cara%$#@! Meu braço! Pára com isso!
- É pra você esquecer a dor na perna.
- Mas se você continuar me batendo vou ter que tomar uns 20 comprimidos pra dor passar...
- ...Por que você tá me olhando com essa cara? Nem vem que eu não vou fazer isso!
- Só mais um, vai! Já pensou? 20 comprimidos! Pode ser um murro bem forte e no rosto se quiser.
- Você é louco!
11 de jan. de 2010
Carnaval do Ivan
- Deixa de ser bobo, Ivan. Você vai perder o melhor dia? – disse Betinha.
Era carnaval e, mesmo não gostando muito, Ivan foi pra rua com a turma nos dois primeiros dias de festa. Com toda certeza, não agüentava mais. Além de exausto, sua consciência estava pesada. Queria voltar logo pra casa e retomar os estudos. Esse sim era o seu combustível, não aquela mistura que o Marcos o fez beber a noite toda.
No apartamento do Cláudio, estavam todos amontoados. Colchões por todo o lado, lotando os quartos, a sala, a cozinha e a sacada.
Antes de sair, pra não acordar todo mundo, só avisou Betinha que estava indo embora e que não se preocupasse, ele mesmo fechava a casa e deixava a chave reserva com o porteiro. A amiga ainda insistiu verbalmente para que Ivan ficasse, até porque, seria fisicamente impossível Betinha chegar até a porta. O caminho era longo, cheio de corpos e garrafas. Sua amiga havia bebido demais pra se preocupar com as despedidas. Mas de fato, queria que Ivan ficasse. Assim, Ivan partiu.
Sem pestanejar, o rapaz foi direto ao ponto esperar o seu ônibus passar. Enquanto esperava, percebia como era diferente o lugar sem aquele tanto de gente da noite passada. Como era pacato. Dava até pra ouvir o canto da cigarra anunciando as chuvas da estação.
O ônibus demorou. Assim que chegou, Ivan subiu e tratou logo de arrumar um lugar pra se encostar. Estava muito cansado. A viagem seria longa e pedia um cochilo. Dormiu.
Acordou quando o ônibus parou. Achou que havia chegado ao ponto final, o terminal. Enganado, mas ainda sem entender o que estava acontecendo, olhou pela janela e percebeu o trânsito todo engarrafado. Um desfile de rua dos blocos do bairro impedia a passagem dos carros.
O motorista foi logo avisando:
- Pra não ter reclamação, daqui a gente não arreda o pé por pelo menos uma hora. Então, quem quiser seguir a pé mesmo, boa viagem.
Sem pensar, Ivan desceu. O terminal estava há umas três quadras dali. Podia muito bem seguir sozinho e ainda aproveitar o desfile dos blocos enquanto caminhava. O desfile de bairros é peculiar porque acontece no meio da rua, em meio ao povo e aos carros. Nada impedia de qualquer um entrar no meio da rua e participar da bagunça.
Ivan precisa passar pro outro lado e, por isso, ingenuamente, na tentativa de atravessar o quanto antes o desfile, não percebeu que na rua estava o Bloco das Damas. O bloco gay estreante do ano. Era o mais animado.
Assim que tirou os pés da calçada, foi agarrado, abraçado e levado pro meio do povo. Depois que um homem entra em um bloco assim, dificilmente consegue sair. Não pelo gosto que toma, mas pela dificuldade física mesmo. São gays, mas nem por isso são fracos. E em carnaval, o apetite fica redobrado.
Em meio à bagunça, empurrões, tapas e beijos, conseguiu se desgarrar do grupo que o segurava e chegar ao outro lado. Ivan estava "estupradamente" exausto. De sua roupa, sobrou sua calça, agora bermuda. Seu rosto estava todo coberto de batom e de marcas de unhas. Mas estava vivo. Era isso que importava. E precisava, mais do que nunca, chegar a sua casa.
Lhe faltava pegar mais um ônibus. De onde estava, avistou o coletivo, pronto pra sair do terminal. Há duas quadras de distância, Ivan começou a correr. Não podia perder a viagem. No desespero, chutou a calçada e caiu como um tronco no chão. A dor era insuportável, mas também não suportaria perder aquele ônibus depois de tanta luta.
Levantou-se e correu como nunca, pois nunca havia corrido mancando com um pé. Quando o ônibus ameaçou sair, Ivan o alcançou. Sem voz, sem perna e quase sem roupa, entrou no ônibus lotado e arrumou um lugar pra se encaixar. Agora era só esperar o seu ponto chegar.
Ivan só percebeu que pegara o ônibus errado quando, em meio ao aperto, lhe sobrou um feixe de luz onde avistou o lado de fora. Estava voltando, fazendo o mesmo longo percurso que havia realizado pra chegar até ali. Desesperado, tentou de todo jeito apertar o botão de parada, mas só conseguiu quando, em um ponto, quase todo mundo desceu da lotação. Ivan também desceu.
Desolado, olhou pro lado, depois pro outro... Dali, estava mais perto da casa do Cláudio do que da sua própria casa. Sem pensar, resolveu voltar para o apartamento, para junto da turma e aproveitar o restante do carnaval. Pegaria uma roupa emprestada do seu amigo até conseguir voltar pra casa.
Assim que voltou, Ivan percebeu que não havia mais ninguém. Já estava tarde, e aquela turma não podia perder um minuto sequer do final de semana. Sentou-se ali mesmo, à beira da porta, do lado de fora, escorou sua cabeça entre as pernas e quietou-se. Não podia fazer mais nada a não ser esperar.
Em meio à tristeza e consternação, Ivan se lembrou que havia deixado a chave reserva com o porteiro. Dali, uma esperança se abriu. Correu lá em baixo e descobriu que a chave ainda estava por lá. De volta pro apartamento, pensou em se trocar e correr atrás da turma pra aproveitar o carnaval, mas não foi bem isso que fez.
Tomou o seu banho, digno da sua história. Pegou uma roupa qualquer do Cláudio e desmoronou no sofá da sala. Aquele silêncio, a calmaria, era o que precisava naquele momento. A festa ia ficar pro ano que vem, e aquele dia, sem dúvida, ia entrar para história de Ivan.
Sem pensar, Ivan desceu. O terminal estava há umas três quadras dali. Podia muito bem seguir sozinho e ainda aproveitar o desfile dos blocos enquanto caminhava. O desfile de bairros é peculiar porque acontece no meio da rua, em meio ao povo e aos carros. Nada impedia de qualquer um entrar no meio da rua e participar da bagunça.
Ivan precisa passar pro outro lado e, por isso, ingenuamente, na tentativa de atravessar o quanto antes o desfile, não percebeu que na rua estava o Bloco das Damas. O bloco gay estreante do ano. Era o mais animado.
Assim que tirou os pés da calçada, foi agarrado, abraçado e levado pro meio do povo. Depois que um homem entra em um bloco assim, dificilmente consegue sair. Não pelo gosto que toma, mas pela dificuldade física mesmo. São gays, mas nem por isso são fracos. E em carnaval, o apetite fica redobrado.
Em meio à bagunça, empurrões, tapas e beijos, conseguiu se desgarrar do grupo que o segurava e chegar ao outro lado. Ivan estava "estupradamente" exausto. De sua roupa, sobrou sua calça, agora bermuda. Seu rosto estava todo coberto de batom e de marcas de unhas. Mas estava vivo. Era isso que importava. E precisava, mais do que nunca, chegar a sua casa.
Lhe faltava pegar mais um ônibus. De onde estava, avistou o coletivo, pronto pra sair do terminal. Há duas quadras de distância, Ivan começou a correr. Não podia perder a viagem. No desespero, chutou a calçada e caiu como um tronco no chão. A dor era insuportável, mas também não suportaria perder aquele ônibus depois de tanta luta.
Levantou-se e correu como nunca, pois nunca havia corrido mancando com um pé. Quando o ônibus ameaçou sair, Ivan o alcançou. Sem voz, sem perna e quase sem roupa, entrou no ônibus lotado e arrumou um lugar pra se encaixar. Agora era só esperar o seu ponto chegar.
Ivan só percebeu que pegara o ônibus errado quando, em meio ao aperto, lhe sobrou um feixe de luz onde avistou o lado de fora. Estava voltando, fazendo o mesmo longo percurso que havia realizado pra chegar até ali. Desesperado, tentou de todo jeito apertar o botão de parada, mas só conseguiu quando, em um ponto, quase todo mundo desceu da lotação. Ivan também desceu.
Desolado, olhou pro lado, depois pro outro... Dali, estava mais perto da casa do Cláudio do que da sua própria casa. Sem pensar, resolveu voltar para o apartamento, para junto da turma e aproveitar o restante do carnaval. Pegaria uma roupa emprestada do seu amigo até conseguir voltar pra casa.
Assim que voltou, Ivan percebeu que não havia mais ninguém. Já estava tarde, e aquela turma não podia perder um minuto sequer do final de semana. Sentou-se ali mesmo, à beira da porta, do lado de fora, escorou sua cabeça entre as pernas e quietou-se. Não podia fazer mais nada a não ser esperar.
Em meio à tristeza e consternação, Ivan se lembrou que havia deixado a chave reserva com o porteiro. Dali, uma esperança se abriu. Correu lá em baixo e descobriu que a chave ainda estava por lá. De volta pro apartamento, pensou em se trocar e correr atrás da turma pra aproveitar o carnaval, mas não foi bem isso que fez.
Tomou o seu banho, digno da sua história. Pegou uma roupa qualquer do Cláudio e desmoronou no sofá da sala. Aquele silêncio, a calmaria, era o que precisava naquele momento. A festa ia ficar pro ano que vem, e aquele dia, sem dúvida, ia entrar para história de Ivan.
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