5 de mar de 2010

À Sombra da Saudade











Há tanto tempo não passava por aquela rua, a mesma e antiga rua que a levava e a trazia, todos os dias, da escola. A mesma árvore com raízes fortes que pulavam da calçada. As mesmas casas, agora mais antigas e cada vez mais cheias de histórias. Tantas lembranças bem guardadas, esperando o dia certo para voltar.

Agora estava ali, de frente ao seu passado, de frente à sua mais bonita recordação. Naquela rua, deu o seu primeiro beijo. Foi debaixo da sombra daquela mesma árvore forte, tão forte quanto o que sentira naquele eterno instante, que viveu o amor pela primeira vez. Não amor de gente grande. Amor de ter amado, mais do que qualquer coisa naqueles tempos, aquele momento. Beijo ingênuo, beijo simples e meigo, cheio da mais certa verdade. Beijo honesto, beijo de criança, de amor puro, sem compromisso com mais nada.

Beijo escondido. Ninguém mais sabia do gosto que tinha um pelo outro. Naquela rua, guardaram juntos essa história. Ambos eram muito tímidos. Ele, mais. Foi com um bilhete que ela mandou que combinaram o lugar. Todo sem jeito, ele chegou sem dizer nada, sem saber direito o que fazer. Ela, mais baixa, já estava sobre a calçada. Colocou os braços sobre seus ombros e o beijou, exatamente como havia aprendido nos filmes. Viveram um amor bem protegido das brincadeiras e chacotas dos outros. Até o dia em que ele se foi. Não por vontade ou maldade. Apenas se foi, junto com toda a sua família, pra outro lugar.

Agora, mais velha, estava de frente ao passado e ao lado do seu mais próximo futuro. Seu noivo. Por um segundo, parou. O velho sorriso, esquecido há tantos anos, voltara. No amor, entre altos a baixo, vivia uma história sem cor. Estava cansada de amar e não ser tão amada como queria e merecia.

Devagar, subiu na calçada, debaixo daquela mesma árvore, e chamou o seu noivo, que estava disperso entre pensamentos, para mais próximo. Sobre os ombros, novamente, colocou os seus braços. Devagar, o beijou. Pra ele, um beijo qualquer. Pra ela, saudade, lembranças, amor como nunca sentiu.

Quando ele se afastou, ela estava chorando. Ele nem percebeu. Apenas pegou em sua mão e, do jeito que sempre fazia, sem vontade alguma de sentí-la, seguiu ausente ao seu lado, pela última vez
.

7 comentários:

Nó! disse...

que história triste
=(

que noivo inútil
haha

Lucão disse...

hehehehe
mas o final nem foi triste. até deixei aberto pra vc imaginar uma coisa boa pra mocinha...
rs

Agora, esse noivo, preciso concordar contigo. Como me deixa uma moça tão bonita assim, tão desiludida?
Ela lá em casa...
hehehe

Jú Gobato disse...

Nossa jovem! ARRASOU!

Beijos!

Luna Sanchez disse...

O noivo parece ter gosto de salada de chuchu... ¬¬

É bom ter lembranças, mas ficar preso à elas, não.

Dois beijos de sexta, pra ti.

ℓυηα

Helena disse...

As figuras de linguagem que usa, a intensidade e o impacto das palavras, a genialidade na descrição de cenas e pessoas e tudo, faz a história saltar do "papel" e acontecer bem aqui, na nossa frente. E a gente vê as expressões do rosto, ouve a respiração e a voz e quase lê pensamentos!
Bom demais, Lucão!
Aplausos todos!
Beijo grandão e meu carinho.

Mariah disse...

vc viu "antes do por do sol"?
seu texto me lembrou o "sabor" do filme.

saudade é doce amargo.

Vera Celms disse...

Lucão, vc deixou meus olhitos de cristal inundados de mar... já vivi algo semelhante... muito proximo... me vi agora nos ombros de alguem, sobre a calçada, só que não foi sob uma arvore, mas defronte ao portão de uma casa em construção, no ano de 1973... tempão né... hmmmmmmm. Ok, dessa vez vc venceu!!!! perdi a fala... e viajei... beijoooooooooooooooow
Fala da minha narrativa, mas a sua não fica nada atras...