11 de jan de 2010

Carnaval do Ivan
















- Deixa de ser bobo, Ivan. Você vai perder o melhor dia? – disse Betinha.

Era carnaval e, mesmo não gostando muito, Ivan foi pra rua com a turma nos dois primeiros dias de festa. Com toda certeza, não agüentava mais. Além de exausto, sua consciência estava pesada. Queria voltar logo pra casa e retomar os estudos. Esse sim era o seu combustível, não aquela mistura que o Marcos o fez beber a noite toda.

No apartamento do Cláudio, estavam todos amontoados. Colchões por todo o lado, lotando os quartos, a sala, a cozinha e a sacada.

Antes de sair, pra não acordar todo mundo, só avisou Betinha que estava indo embora e que não se preocupasse, ele mesmo fechava a casa e deixava a chave reserva com o porteiro. A amiga ainda insistiu verbalmente para que Ivan ficasse, até porque, seria fisicamente impossível Betinha chegar até a porta. O caminho era longo, cheio de corpos e garrafas. Sua amiga havia bebido demais pra se preocupar com as despedidas. Mas de fato, queria que Ivan ficasse. Assim, Ivan partiu.

Sem pestanejar, o rapaz foi direto ao ponto esperar o seu ônibus passar. Enquanto esperava, percebia como era diferente o lugar sem aquele tanto de gente da noite passada. Como era pacato. Dava até pra ouvir o canto da cigarra anunciando as chuvas da estação.

O ônibus demorou. Assim que chegou, Ivan subiu e tratou logo de arrumar um lugar pra se encostar. Estava muito cansado. A viagem seria longa e pedia um cochilo. Dormiu.

Acordou quando o ônibus parou. Achou que havia chegado ao ponto final, o terminal. Enganado, mas ainda sem entender o que estava acontecendo, olhou pela janela e percebeu o trânsito todo engarrafado. Um desfile de rua dos blocos do bairro impedia a passagem dos carros.

O motorista foi logo avisando:
- Pra não ter reclamação, daqui a gente não arreda o pé por pelo menos uma hora. Então, quem quiser seguir a pé mesmo, boa viagem.

Sem pensar, Ivan desceu. O terminal estava há umas três quadras dali. Podia muito bem seguir sozinho e ainda aproveitar o desfile dos blocos enquanto caminhava. O desfile de bairros é peculiar porque acontece no meio da rua, em meio ao povo e aos carros. Nada impedia de qualquer um entrar no meio da rua e participar da bagunça.

Ivan precisa passar pro outro lado e, por isso, ingenuamente, na tentativa de atravessar o quanto antes o desfile, não percebeu que na rua estava o Bloco das Damas. O bloco gay estreante do ano. Era o mais animado.

Assim que tirou os pés da calçada, foi agarrado, abraçado e levado pro meio do povo. Depois que um homem entra em um bloco assim, dificilmente consegue sair. Não pelo gosto que toma, mas pela dificuldade física mesmo. São gays, mas nem por isso são fracos. E em carnaval, o apetite fica redobrado.

Em meio à bagunça, empurrões, tapas e beijos, conseguiu se desgarrar do grupo que o segurava e chegar ao outro lado. Ivan estava "estupradamente" exausto.  De sua roupa, sobrou sua calça, agora bermuda. Seu rosto estava todo coberto de batom e de marcas de unhas. Mas estava vivo. Era isso que importava. E precisava, mais do que nunca, chegar a sua casa.

Lhe faltava pegar mais um ônibus. De onde estava, avistou o coletivo, pronto pra sair do terminal. Há duas quadras de distância, Ivan começou a correr. Não podia perder a viagem. No desespero, chutou a calçada e caiu como um tronco no chão. A dor era insuportável, mas também não suportaria perder aquele ônibus depois de tanta luta.

Levantou-se e correu como nunca, pois nunca havia corrido mancando com um pé. Quando o ônibus ameaçou sair, Ivan o alcançou. Sem voz, sem perna e quase sem roupa, entrou no ônibus lotado e arrumou um lugar pra se encaixar. Agora era só esperar o seu ponto chegar.

Ivan só percebeu que pegara o ônibus errado quando, em meio ao aperto, lhe sobrou um feixe de luz onde avistou o lado de fora. Estava voltando, fazendo o mesmo longo percurso que havia realizado pra chegar até ali. Desesperado, tentou de todo jeito apertar o botão de parada, mas só conseguiu quando, em um ponto, quase todo mundo desceu da lotação. Ivan também desceu.

Desolado, olhou pro lado, depois pro outro... Dali, estava mais perto da casa do Cláudio do que da sua própria casa. Sem pensar, resolveu voltar para o apartamento, para junto da turma e aproveitar o restante do carnaval. Pegaria uma roupa emprestada do seu amigo até conseguir voltar pra casa.

Assim que voltou, Ivan percebeu que não havia mais ninguém. Já estava tarde, e aquela turma não podia perder um minuto sequer do final de semana.  Sentou-se ali mesmo, à beira da porta, do lado de fora, escorou sua cabeça entre as pernas e quietou-se. Não podia fazer mais nada a não ser esperar.

Em meio à tristeza e consternação, Ivan se lembrou que havia deixado a chave reserva com o porteiro. Dali, uma esperança se abriu. Correu lá em baixo e descobriu que a chave ainda estava por lá. De volta pro apartamento, pensou em se trocar e correr atrás da turma pra aproveitar o carnaval, mas não foi bem isso que fez.

Tomou o seu banho, digno da sua história. Pegou uma roupa qualquer do Cláudio e desmoronou no sofá da sala. Aquele silêncio, a calmaria, era o que precisava naquele momento. A festa ia ficar pro ano que vem, e aquele dia, sem dúvida, ia entrar para história de Ivan.

4 comentários:

Ana disse...

Pow, esse carnaval do Ivan foi beeem tenso ein! rsrsrs ;)

Susyanne Alves disse...

Olá Lucas!
Feliz ano novo!

Adorei a história do Ivan.
Depois dessa ela vai pensar duas vezes antes de correr atrás de um ônibus.

bj

iuLa disse...

Iiii, eu já tinha visto esse! Mas do dia que vi até hoje, continua mto bom. hehe. Beijo, seu anta. =D

Lucão disse...

heheheheheh
vc leu na sessão especial para críticos especiais
;)

Eu agradeço!