30 de dez de 2009

Bom Amante





Na profissão de homem/amante,

Difícil é ser imparcial.
Como sou um bom errante,
Tendo a amá-las por igual.

29 de dez de 2009

23 de dez de 2009

Melhor Do Que Ser Jaca



Batatinha quando nasce

Agradece em oração.
É que a jaca quando cresce
Se arrebenta pelo chão.

Dilema da Batatinha






Batatinha quando nasce

Não entende a situação.
Se nascesse pé de alface,
Era só trazer o limão.

21 de dez de 2009

Segredo












Lá em cima
Do Morro Perdido,
Escondido entre as nuvens,
Existe um portal
Vigiado por um guardião.
Depois da entrada
Encontra-se um rio
Onde dividem
O mesmo habitat,
Três montes de piranhas,
Um lindo Jacaré
E uma dúzia de tubarão.
Para atravessar o riacho,
Além de nadar,
Precisa ser cabra macho,
Bem forte do braço
E ligeiro do pé.
Passado o aguaceiro
A trilha do morro adentro
Leva a uma outra emboscada:
Um ninho de cobra
Criada com sogra e fermento.
Logo adiante do ninho,
Por sobre um baú
Muito bem trancado
Estão sete chaves,
Todas enroscadas
No pé de uma ave gigante.
Para arrancá-las do pé,
Dentro do rio passado,
No rabo do jacaré,
Está amarrado um estojo
Com flauta e tranquilizantes.
Depois da sexta noite
De música sacra incessante,
Dois comprimidos
Farão com que a ave
Durma n'um instante.
Dentro da caixa
Existe um envelope fechado
E lacrado com cera bem quente.
Dentro, bem guardado,
Vive um segredo,
Que, se for revelado,
Com toda a certeza,
Nunca valerá
Nem um terço da glória
De quem um dia
Sobreviver a essa história.

19 de dez de 2009

Classificados


Estou à procura 
De frases de efeito,
Para fazer 
Um anúncio perfeito
Sem ter sequer um conceito.
Tenho somente o produto, 
Que em sua forma bruta
É nada mais
Que um grande fajuto
Cheio de defeitos.

18 de dez de 2009

O Custo da Subida














Do que adianta

Subir na vida
A todo custo,
Se na hora da morte
O chifrudo te pega 
E te puxa pelo busto?

16 de dez de 2009

Amor de Vitrine














Se te amar 

Fosse apenas modismo,
Seria pioneirismo dizer
Que o meu amor por você
É a nova tendência da coleção
Outono/inverno/primavera/verão.

Galã Decaído




Nesta proposição,

Apresento o que chamo
De retrogalanteador:
Com suas cantadas
Muito mal armadas,
Tipo "Oi, meu amor",
Segue tentando
Encontrar uma fresta
Para implantar o tesão
Nas moças pouco amadas,
Abusando do pouco pudor 
Que lhe resta.


15 de dez de 2009

Vida Barata











Para a próxima estrofe,
Os fatos dispensam
O poder da errata.

Sai muito mais caro pro homem

Levar uma vida
Barata.


14 de dez de 2009

11 de dez de 2009

Sobre Saudade




Saudade é o resumo

Das boas lembranças
Que tenho da vida.
Pra minha saudade 
Não há despedida.

Motoqueiro Fantasma














Na verdade, é o seguinte:

Motoqueiro fantasma existe,
E é feito de alma indecente.
Surgiu de uma história triste,
Que aconteceu de repente.
Um dia, parado no aslfato, 
O sinal abriu, e o motoqueiro partiu
Empinando a roda da frente.
Foi então que o panaca caiu
Pra viver assombrando a gente.

10 de dez de 2009

Menina das Águas















Por onde passa
Deixa tragédia e esperança.
É que nasceu com uma rara doença,
A guria chorava até na bonança.
É assim que tem sido sua vida:
Sem parar de chorar e sem outra saída,
A menina só pode ajudar
A aumentar a umidade relativa do ar.


9 de dez de 2009

Lua












Tanta coisa na vida tem peso. 
Quase sempre o que pesa é a idade.
E quando a moral tá em baixa,
É difícil tentar levantá-la.
Pra subir nessa vida é um custo.
Tem gente que leva um rei na barriga.
E não existe, no mundo,
Uma lei mais severa
Que a da gravidade.
É por estas que estou de partida.
Vou seguir até o fim da rua,
E, de lá, vou subir inclinado pra lua.
É por lá que eu vou me ajeitar.
Onde o peso é um coadjuvante.
Onde ainda não há o correto e o errante.
É do lado de lá que eu quero ficar.

Entre a Vida e o Sonho (Parte III)














E todos os sonhos seguintes
Eram como o sonho primeiro.
Sem consagrar o amor,
Só o calor e o cheiro.

Até o dia da última noite 

Da noite sem sonho, sem deusa.
Da noite confusa
Sem calor e sem musa.

Noite sem fim.

Noite assim não podia.
A paixão figurava em ti.
Àquela noite, noite vazia.

Perto do dia, acordou meio estranho

Com a deusa ao seu lado,
Convidando-o a viver uma outra verdade,
Outra realidade, entre a vida e o sonho.

                        

8 de dez de 2009

Prazo




Vou amar
Só até me cansar.
Depois, me deitar
Até não aguentar a saudade
De amar sem ter dó e piedade.

Entre a Vida e o Sonho (Parte II)












No tempo que tinha,
Esperava a lua voltar, 
Pra então se deitar
E velar a noite, raiar o dia.

Pois, no escuro mais frio

Das noites mais tristes,
Deitou-se e sonhou,
E sentiu-se mais gente.

Entre sonho e deleite,

Sentiu o calor de outro corpo.
Era a deusa do sonho,
Fazendo da noite, mais quente.

E quando tentou lhe amar,

Acordou, meio embriagado,
Ainda sonhando acordado
Com os olhos da cor do mar.

(continua)

7 de dez de 2009

Entre a Vida e o Sonho (Parte I)

(Uma história em verso e em partes. Hoje apresento a primeira, em breve a segunda e a sequência derradeira)
















Pouca paixão 
Lhe sobrara na vida.
Na morte, eram tantas,
Muitas esquecidas.

A maior, sua mãe, 

A mais dura partida,
Fez o seu mundo menor.
Pra saudade, não há despedida.

Vivia por conta

Da vida, das contas,
Da tonta vida de sempre, 
Em volta da rotina pronta.

Acordar, trabalhar e voltar.

Voltar a acordar, trabalhar
E voltar a dormir,
Sem se esquecer de acordar.

(Continua...)

4 de dez de 2009

Otimista e Pessimista














O cabra mais otimista,

Estuda, insiste e se prepara,
Pra no fim 
Levar a vara.

O outro, 

O derrotista,
Já tem a derrota em vista,
Pra nunca quebrar a cara.

3 de dez de 2009

Síndrome de Dálmata












Está rolando na cidade
Um trote meio esquisito.
Um tal de Benedito, 
Com voz de quem tem meia idade,
Liga pro desconhecido
E diz em tom meio alarido,
E também de ostentação,
Que ele foi premiado
E vai ganhar mais de um milhão.
Mas que pra receber o prêmio,
Tem de fazer uma doação
Em notas muito bem vivas
Pra certa instituição
Que cuida de criancinhas
Que tem Sìndrome de Dálmata.
Pois que asse a batata
Mas não culpem um nem outro.
Nada é mais dolorido
Que não ter muita ação
Diante do acontecido.
Quem tenta ganhar dinheiro
Às custas do povo pobre
E com tanta ignorância,
Muito rico que não é.
Sei também que não é nobre
Acreditar por inteiro,
Assim, da cabeça aos pés,
Nesse trote derradeiro.
Não é um caso corriqueiro,
Mas isso muito me dói.
Pois só consigo enxergar a solução,
Se na visão de quem constrói nosso futuro,
Estiver bem empregada
A palavra educação.

Edifício




Fica muito mais difícil 
De tentar subir na vida
Quando a vida é um edifício
E a única escada,
A que conduz à subida,
Está quebrada.

1 de dez de 2009

Superpoderes














Enquanto alguns
Têm de usar 
Todo o poder
Da paciência
Pra aguentar
A ignorância,

Uns se esforçam

Pra aprender
A manejar
O poder 
Da inteligência
Com muita atenuância.

Conversa de Malandro














Entre mim e o meu amigo
Existe um certo combinado.
Entre as nossas hitórias,
Se o conto for bonito,
Ele sucedeu comigo.
Se o conto for malvado,
Digo então que aconteceu
Com o tal do amigo meu.

30 de nov de 2009

Economia












As lágrimas que escorrem
Dos olhos de quem desce
O morro da vida

São todas canalizadas

Para acabar com a sede
De quem está na subida.

26 de nov de 2009

Com Fusão














Eu, 
Que gosto docê,
Que gosta de mim,
Que gosto docê e de mim.

Você, 

Que gosta de mim,
Que gosto docê,
Que gosta de mim e docê.

Nós,

Que gostamos tanto,
Desse monte de gosto,
E de gostar desse tanto sem fim.

Não sei.

Só sei que é bom
Gostar de um tanto,
Que nem dá mais pra gente sabê
se é bom ou ruim.

25 de nov de 2009

Azar o Seu














Se um dia
Pedir-me conselho pro azar,
Eu direi:
Compre um pé de coelho.

Se um dia
Pedir-me dinheiro, azar.
Eu rirei:
Compre um coelho inteiro.





23 de nov de 2009

Upgrade Ortográfico














para facilitar ainda mais o entendimento da língua portuguesa, seis novos tópicos foram acrescentados ao novo acordo ortográfico que passou a vigorar em janeiro desse ano. são eles:

1. com o intuito de nivelar o uso da língua, a partir dessa data todas as palavras devem ser escritas em letras minúsculas, com excessão das palavras "Deus", "Ave Maria" e "Ronaldo".

2. oxítonas terminadas em "mim" serão banidas por serem muito egocêntricas.
3. para acabar com o equívoco na pronúncia, o novo acordo prevê a mudança da grafia de algumas palavras, que passarão a ser escritas da seguinte forma: tóquicico, xéroquis, néquiço, convéquiço e séquiço.
4. o acento agudo da palavra "miocárdio" só não deverá ser usado quando existir risco de morte.
5. a serapação silábica da palavra "casa" só acontecerá se no acordo estiver prevista a comunhão de bens.
6. ditongos e tritongos não serão mais aceitos na língua portuguesa. com o novo acordo, só poliglotas e com, no mínimo, um curso de pós graduação serão permitidos.

20 de nov de 2009

19 de nov de 2009

Dúvida Irreflexiva




O que fazer em um País onde mais de cinquenta por cento da população é maioria absoluta?

Oferendas















Pra quem muito come: panela.
Pra bixo homem: donzela.
Pra bicho de pé: a chinela.
Pra quem não sabe o que quer: rodela.
Pra quem acha que muito é: cautela.
Pra quem tem fome na vida: vitela.
Pra noites mal dormidas: remela.
Pra calma na saída: cancela.
Pra despedida: janela.
Pra quem não vale um tostão: bagatela.
Pra quem já viveu um tempão: a fotonovela.
Pra temperar no fogão: a canela.
Pra correr do ladrão: a magrela.
Pra quem tem dente são: banguela.
Pra quem não tem um quinhão: a favela.
Pra correr do apagão: muita vela






16 de nov de 2009

Sabedoria Popular do Povo 01


Exerça o trabalho 
De viver intensamente 
Cada segundo, 
Ou deixe o trabalho
Viver intensamente 
Até não lhe sobrar um segundo.



Josinete














Josineti era bem diferente.
Cresceu viciada em internet.
Ao vivo, conheceu pouca gente.
Na rede, era a mais populete.
Só saía do quarto doente,
Ou então pra comer um croquete.


Depois de ouvir o fuxico
Que essa internet era um tédio,
Seus pais decidiram acabar com o futrico.
Precisavam encontrar um remédio.
Josinete ainda usava pinico,
Não podia sofrer tanto assédio.


Foram ao médico com Josinete.
A primeira ordem, cortar a internet:
"Criança pequena precisa brincar.
Esse negócio de orcuti e tuíti,
Fez meu casamento acabar em desquite.
Imagina se essa criança aprender a usar."


Retornaram pra casa com uma medida.
Cancelaram a internet tentando abrir a janela da vida.
Só não perceberam que essa saída
Só funcionaria no tempo do videocassete.
Nesse dia, a menina entrou para o quarto 
E dormiu, sem enquete.


Na outra manhã, 
Junto com a net,
A guria sumiu. 
E mesmo sendo procurada, 
A menina não foi encontrada.
Ninguém mais a viu.

13 de nov de 2009

12 de nov de 2009

O Crítico















O começo do filme
É o princípio da história.
Inicialmente, é a hora
Em que a trama começa, 
Devagar, mas sempre firme.

O meio é meio mau.

Por ser ele a metade,
Fica longe do começo 
E da sua finalidade.
Do filme, é a parte Central.

O final não surpreende.

Lá na parte derradeira,
Todo mundo só entende
A etapa terminal da brincadeira,
Quando surge, finalmente, o The End.

9 de nov de 2009

Festa da Turma














A turma não se encontrava há muito tempo. Claudinha, a que sempre esteve à frente na organização das festas, tomou a iniciativa de juntar o pessoal novamente. A idéia era fazer desse encontro um grande momento para relembrar aqueles anos mágicos da faculdade.

Claudinha teve a idéia de fazer uma festa à fantasia. Cada um podia escolher a personagem que quisesse. Ela cuidou de tudo. Reservou o salão do prédio, mandou convite pra todos. Depois alugou algumas mesas, enfeitou o local e escolheu a fantasia. Iria de Madonna.


Os convidados começaram a chegar. De cara, um encontro inusitado marcou o começo da festa. Michael Jackson e Madonna no mesmo salão. Melhor, Claudinha e Ricardo, o ex-casal mais querido da turma. Um
moonwalk cairia bem naquela hora, mas o máximo que Ricardo sabia fazer era dar uns gritinhos, que nada tinham a ver com os do verdadeiro Michael. Depois que Cláudia soube da outra de Ricardo, eles nunca mais se falaram. Mas era a noite da reconciliação, das saudades e dos reencontros.

Os convidados foram chegando e, como de costume, tinham os mais atrasados. Os primeiros foram recebidos com palmas, risinhos, gritinhos. Cada um que entrava era anunciado em coro pela turma, puxado pelo entusiasmado do Fernando, que ficou a noite toda ao lado da porta esperando o próximo convidado entrar. Ele era o engraçadinho da turma. Na maioria das vezes, o “engraçadinho demais pro meu gosto” da galera.

O clima começou a esquentar. A turma, já pra lá de São Tomé, estava bastante empolgada e os convidados continuavam a chegar, cada vez mais, recebidos com gritinhos e gracinhas. Os mais empolgados comentavam as fantasias dos que iam entrando.

Marcinha se sentiu ofendida quando Marcelo chegou fantasiado de prostituta. Começou a chorar e a gritar, dizendo que não foi por opção, na época ela precisava de dinheiro. Marcelo ficou constrangido. Nem se lembrava de Márcia. Alguns a consolaram, outros foram pra cima do Marcelo. Logo a confusão esfriou e a festa foi retomando o clima de descontração e euforia.

Quanto mais tarde ficava, mais a turma se empolgava, mais as lembranças vinham à tona, mais o clima ia esquentando. Heraldo chegou fantasiado de Collor. Uns gritaram “ladrão!”, outros “seu político!” e os gritos, cada vez mais altos, já não se referiam tanto à sua fantasia, como “seu tarado!”, “gostoso!”. Os homens, em geral, não gostavam de Heraldo. Já as mulheres... Ele era moreno, alto e forte. O único problema era a falta de inteligência. Culpa do excesso de anabolizantes e entorpecentes que costuma usar enquanto faltava algumas aulas. Nunca reprovou por nota baixa, é preciso dizer. Só mesmo por falta.

Quando Pablo chegou, a confusão aumentou. Todos o reconheceram fantasiado de Silvia, a professora mais amada e odiada da Faculdade. “Ame-a ou deixe-a”, era como ela era chamada pelos alunos da época. Metade da turma que estava na festa havia sido reprovada pela ditadora. A outra metade, não poupava elogios à bruxa. A primeira garrafa voou por toda a sala e foi quebrar na porta, atrás do Pablo. Em seguida vieram outras de direções distintas. Uns se empolgaram e jogaram copos, outros talheres, alguns aproveitaram a desordem pra jogar fora aquele pão com patê meio estragado que a Claudinha preparou.
 Os mais apaixonados resgataram os amores deixados no tempo. Claudinha e Ricardo, por exemplo, se amassaram ali mesmo, na frente de todo mundo, inclusive do namorado de Cláudia.

A festa terminou mal. Mas mau mesmo ficou pra Claudinha. Contabilizando o prejuízo do salão mais o fim do namoro, só a morte lhe traria mais danos. Alguns falaram que iam ajudar, mas logo foram embora carregados por outros.

Claudinha não se importou muito com tudo. A festa virou um pretexto. Depois da traição de Ricardo, Claudinha ficou mal, mas nunca conseguiu esquecê-lo. Ele também, se arrependera bastante do que fez. Chegou a mandar recado pela rádio da faculdade pedindo o perdão de Cláudia em praça pública. Mas ela era muito orgulhosa.

Hoje, aos 30 anos, mais madura, Cláudia estava pronta pra perdoá-lo. Essa tática de se vestir de Michael deu certo. Rircardo sabia da paixão de Cláudia pelo cantor. A única condição que Cláudia impôs à Ricardo foi que ele parasse com aqueles gritinhos.


6 de nov de 2009

Ao Pé da Letra












Telefone toca, moça atende e do outro lado da linha alguém fala:
- Boa tarde.
- Obrigado!
- (...)  quem fala?
- Todos!
- Todos o que?
- Todos falam. 
- Ahm???
- Você me perguntou quem fala, eu respondi que todos. Todos falam. Tirando os animais irracionais, é claro.
- Ahm... Tá! eu gostaria de falar com o Márcio.
- Que bom! O Seu Márcio é mesmo um cara bacana. Muita gente gostaria de falar com ele, sem dúvida. E você quer deixar isso registrado? como é?
- Olha! Não estou entendendo muito isso daqui, mas o Márcio está?
- Onde?
- Onde o que? 
- Você me perguntou se o Márcio está e eu te perguntei "onde?". 
- Aí, poxa!  Ele está aí? 
- Está, sim senhor.
- (...) Alô?
- Opa! 
- E o Márcio?
- O que tem o Seu Márcio?
- Você pode ir chamá-lo, por-fa-vor?
- Depende. Você quer que eu o chame quando?
- Se puder ir agora, nesse exato momento, eu agradeço.
- Ah tá. Então liga mais tarde que agora eu não posso não. A cozinha está cheia de louça suja pra eu lavar e eu ainda tenho que arrumar o quarto dos meninos. 
- Olha, sem querer ser chato, mas eu só vou pedir mais uma vez. Eu preciso falar com o Márcio!
- Está bem! 
- (...) Alô? 
- Opa.
- Você não foi chamar o Márcio???
- Olha, doutor. Não estou entendendo mais o senhor. Primeiro Você disse que só ia pedir mais uma vez. Agora, está aí falando de novo e de novo...
- Céus! Moça, pode deixar. Esquece que eu liguei. Eu só queria... Eu gostaria só de... É que eu quereria... Hunf! Tchau!

5 de nov de 2009

Fofocas















Claudinha falou pro Fernando
Que estava achando que ia chover.
Fernando, muito precavido,
Falou pro coitado do Hernando,
Que uma tempestade ia vindo.
Hernando, já desesperado,
Correu no vizinho ao lado,
Seu grande amigo,
Que tinha na casa
Um abrigo contra furacão.
O vizinho,
Que não era bobo nem nada,
Subiu na sacada e gritou:
"Corre, negada! está vindo um tufão".
Sem saber,
A cidade foi toda tomada
Por pânico e destruição.
As autoridades chegaram e espalharam
Que o ataque vinha do Japão.
Logo os Estados Unidos entraram
Dizendo que, em branco,
Isso não passaria.
Mandou o que tinha
De ultra moderno em artilharia.
Os alemães,
Então pês-da-vida,
Não aceitaram
Quando escutaram
Que os americanos chamaram
De 'quenga' sua mãezinha querida.
Daí, começou-se outra guerra.
E a paz que Claudinha queria,
Debaixo da chuva que vinha, já era.
Tudo culpa de uma fofoquinha.



4 de nov de 2009

Severino e a Torneira Solta















Existe uma história
Que corre o sertão
De um bravo menino.
Nome: Severino.
Quando nasceu,
Ninguém percebeu
O que tinha, o garoto,
De tão diferente.
Era, Severino,
um menino doente.
Dizem uns outros,
Que é na moléstia
E também da modéstia,
Que brota a coisa mais honesta
No pobre sertão:
Severino encontrou compaixão.
Tanto sofrimento
Envolvido na terra
Tanta gente que chora
E que berra de fome e de sede.
Resolveu, Severino,
Começar, de repente,
Uma revolução.
Sua perturbação
Era a sua aliada.
Pra começar
A dar como encerrada
Essa história
De que no Sertão
Falta água encanada,
O guri começou
A tal reviravolta
Se apegando na crença,
E também abusando da própria doença.
Sua torneira solta,
É o que o povo conta,
Não foi o que fez
O sertão virar mar,
Mas fez muita gente
Chorar de emoção.
E com a água salgada
Do choro do povo
Logo o sertão virou mar,
De novo.

30 de out de 2009

Especialista em Coisa















Esse negócio
Que você diz que sente,
De te doer as costas,
De ter dor no dente,
Que você diz que gosta
E que você diz que sente.
Esse negócio
Que te dói os braços,
Que as vezes coça,
Que, pra todos, mostra
E, pra ninguém, mente.
Esse negócio,
Posso estar errado,
Mas ainda quero
Que você me ouça.
Não parece
Que é muito sério,
Mas parece
Que é alguma coisa.

29 de out de 2009

Toda Menina















Toda menina que é magra
Queria ser um pouco
Mais gorda.

Toda Menina que é santa
Queria ser um pouco
Mais doida.

Toda menina que canta
Queria ter voz de
Mulher rouca.

Toda menina que samba
Queria ter a cadeira
Solta.

É que menina que muito tem
Acha sempre que a vida
É pouca.

Ter muita coisa na vida
Te tira do sério
E te deixa louca.

Samba menina
Toda retorcida,
Esquece o que você tem.

Samba menina
Que uma sacudida
Nunca fez mal pra alguém.


27 de out de 2009

O Ticket










Paraibano, acabado de chegar na cidade grande, arrumou emprego de faz-de-tudo em uma loja de eletrônicos no Shopping Center da capital. Seu primeiro serviço seria entregar alguns produtos que uma freguesa muito rica havia comprado. Eram tantos produtos que não caberiam na motinha que havia adquirido com o dinheiro da casa que deixou lá no sertão. Iria na van da empresa.


- Sabe dirigir, seu Máique?
- Sei, sim sinhô!
- Então pegue a van e vá entregar esses produtos nesse endereço aqui. Não demore. Vai!
- Pode deixar!


Tudo era muito moderno pro paraibano. Os tempos suados vividos no interior do sertão não lhe serviam mais pra muita coisa. Era tanta modernidade. Coisa igual só tinha visto nos filmes que passavam na televisão do Seu Benedito, o dono da vendinha lá da sua cidade.


Entrou na van e partiu. Porém, logo ali, na saída do shopping, entre o estacionamento e a rua, Máique ficou cara a cara com o que, pra ele, era a sua pior inimiga: a tecnologia. Quem poderia imaginar que uma cancela de estacionamento seria tão tecnológica e, ao mesmo tempo, amedrontadora para o simples nordestino.


Um braço cumprido de aço estendido à sua frente, na horizontal, impedia a sua saída. Ao lado, uma caixa pequena de metal com um botão vermelho guardava alguma coisa que Máique ainda não sabia o que era. Sabia que botões serviam pra alguma coisa, normalmente pra ajudar ou atrapalhar.


Instintivamente, apertou o botão e esperou. Nada aconteceu. Máique estava inseguro e um pouco impaciente. Tinha uma entrega pra fazer e não podia ficar ali o dia inteiro. Apertou o botão novamente e, quase que no mesmo instante, ouviu uma voz desesperada que saía de dentro da caixa:


- Insira o tíqueti, pú favô!


O paraibano se assustou. De onde vinha aquele grito?


- Insira o tíqueti! – repetiu a caixinha.
- Quem tá aí??? – gritou Máique, assustado, se dirigindo para a pequena caixa.
- Óie! O cê precisa inserí o tíqueti na máquina. Insira o tíqueti, pú favô! – disse novamente e já impaciente.
- Onde é que o cê tá? Saia daí de dentro e lute como homi, cabra frouxo!
- In-si-ra o tí-que-ti, pú fa-vô!


Na hora, Máique reconheceu o sotaque que vinha de dentro daquele cubo de metal. Era também um nordestino que estava ali, preso naquela caixa. De dentro do estacionamento, uma fila de carros já havia se formado atrás da van. Alguns estavam nervosos com a demora, mas nenhum estava tão assustado como o Máique.


- Comé que o cê foi pará aí dentro, homi??? – gritou Máique, quase que chorando.
- O senhô precisa colocá o tíqueti na máquina.
- Calma que eu vô lê tirá daí. – disse o paraibano enquanto descia ligeiro da van.


Máique começou a puxar a caixa, numa tentativa de abri-la a todo custo. Os seguranças logo foram chamados e o rapaz, ao ver que ia ser pego, pulou o tal braço do robô que estava à sua frente e saiu em disparada pra fora do estacionamento.


Assustado, resolveu, naquela mesma hora, que não ficaria mais um minuto na cidade grande. Venderia sua moto, o único bem que lhe sobrou, e voltaria já para o sertão. Ele sabia que essa tal de convergência tecnológica era uma grande mentira.


Naquele dia, Máique pôde comprovar sua tese de que “por trás de um grande invento, há sempre um nordestino ganhando um mísero tento.”